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Marcos Volcan: "Conquistamos uma cidadania eclesial a duras penas"

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VolcanPara o Presidente da Renovação Carismática Católica, Marcos Volcan, o aprofundamento na formação é importante para a cidadania eclesial e preserva a identidade do movimento.

 

Identidade, unidade e missão. Essas são palavras especiais para o direcionamento das ações do Conselho Nacional da Renovação Carismática Católica do Brasil presidido pelo teólogo gaúcho Marcos Volcan, 36 anos, há 26 engajado no movimento que reúne, no país, aproximadamente 8 milhões de católicos em suas fileiras, como é costume dizer.

Volcan é conhecido pela defesa contumaz da formação dos integrantes da RCC. Na opinião do Presidente sem esse investimento coloca-se em risco a identidade do movimento e não se consegue amadurecer no uso dos carismas do Espírito Santo. É um posicionamento que não está livre de críticas e que divide as atenções com a necessidade, ainda presente, de melhorar as relações da Renovação com o clero e com as expressões eclesiais avessas ao movimento.

Na entrevista a seguir, concedida ao Ministério de Comunicação Social (MCS) de São Luís, Maranhão, durante retiro onde se elegeu a nova coordenação do Estado, Marcos Volcan fala dos caminhos que a Renovação Carismática Católica (RCC) brasileira deve percorrer nos próximos anos para crescer na missão de tornar cada vez mais visível a Cultura de Pentecostes.


MCS – O senhor já foi coordenador da comissão de formação nacional. Como isso influi na coordenação das ações da RCC?
Volcan – O trabalho nessa comissão me fez perceber que as dioceses que valorizam a formação têm lideranças mais
preparadas o que influi no aprofundamento da identidade da renovação. A formação é uma etapa especial na promoção da experiência carismática.


MCS – Alguns olham nisto um perigo para a espontaneidade da Renovação.
Volcan – Comenta-se às vezes que a formação sufoca os carismas, mas é justamente o contrário... Ela cuida do carisma, é uma guardiã! E se pensamos que a formação aprofunda nossa identidade, então não há perigo nisso... Eu acredito que o esforço por uma formação melhor vem ao encontro de nossa espontaneidade. Por essa razão temos o projeto do Centro Nacional de Formação (um espaço que vai viabilizar pesquisas e estudos teológicopastoral ara ajudar os integrantes da RCC a compreender assuntos pouco abordados).


MCS – A CNBB conhece o projeto?
Volcan – É uma atividade mais interna que ainda não expusemos à CNBB. Mas de uma forma geral os projetos da RCC já foram apresentados, através de nosso assessor eclesiástico, Dom Alberto Taveira (bispo de Palmas/TO), na última reunião da Comissão Episcopal de Doutrina.


MCS – O Centro Nacional de Formação é uma resposta aos questionamentos do Documento 53 da CNBB sobre os problemas de formação dos integrantes da RCC?
Volcan – O problema de formação não é só da RCC. Em geral os leigos têm pouca formação! Mas acredito que com o Centro Nacional de Formação, com centros regionais e atividades formativas realizadas nas dioceses, vamos contribuir de forma positiva nesse aspecto. Agora é bom lembrar que a maioria das questões levantadas no Documento 53 são de caráter disciplinar, o que limita a função de um Documento... Hoje fazemos uma releitura das orientações – levando em conta as condições nas quais foram publicadas - a partir de Documentos do Concílio Vaticano II e do Documento nº 62 da CNBB sobre “Missão e os Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas” que mostra a evangelização como tarefa de todo povo de Deus! É um Documento que reconhece a plena cidadania eclesial dos cristãos.


MCS – Seria hora de um novo documento da CNBB sobre a Renovação?
Volcan – Particularmente acho que não há mais necessidade de se escrever sobre a Renovação em termos de Documentos. Nos últimos anos a própria Renovação já escreveu muito sobre si e muitos já escreveram sobre nós... Penso que precisamos ler o que já foi escrito! A Renovação tem sua cidadania eclesial e, no meu pensamento, ela não precisaria de mais Documentos para validar essa cidadania conquistada a duras penas.


MCS – O senhor se refere às dificuldades de relacionamento com setores da Igreja?
Volcan – Veja, em âmbito nacional temos uma boa relação com a Igreja. A CNBB, por exemplo, quando sente necessidade nos chama para um diálogo, são relações proveitosas. Em âmbito das dioceses varia muito, mas na maioria das vezes o clero nos apóia... Os bispos normalmente dão um bom acompanhamento e apoio a Renovação, mas existem dioceses nas quais não dispomos desse apoio pastoral, o que é raro.


MCS – A RCC das dioceses que não contam com esse apoio sofrem restrições?
Volcan – Os problemas de restrições, não aceitação ou medidas disciplinares são eventuais... As dificuldades não são apenas da Renovação com o clero, mas também do clero com a Renovação! É preciso amadurecimento de ambos e
nessas dioceses o clero precisa perceber que temos cidadania eclesial e nós precisamos respeitar o que é próprio do clero.


MCS – Essas restrições acontecem pela falta de conhecimento sobre a Renovação?
Volcan – A Renovação já tem 35 anos no Brasil, é conhecida, mas nem sempre foi acompanhada. As dificuldades locais, quando surgem, não se dão tanto por uma questão de desconhecimento, mas em geral pela falta de compreensão de que nós leigos temos uma forma de nos expressar enquanto Igreja, na Renovação. Uma forma que talvez não se adapte aos modelos que alguns (padres) receberam no período de formação no seminário... Mas a Renovação é uma expressão genuína, aceita pelo Papa, pelas Conferências Episcopais, pela Igreja.


MCS – E como o Conselho Nacional orienta os carismáticos ue sofrem restrições?
Volcan – É preciso buscar a comunhão de todas as formas possíveis e nunca partir para o conflito, isso nunca ajuda. Também importa apresentar melhor a Renovação ao clero menos receptivo, mostrar que não competimos pelo espaço dele e que desejamos ser um instrumento de colaboração, trabalhar em unidade!


MCS – O que o senhor pensa sobre unidade?
Volcan – A unidade é um ideal a ser alcançado... É como o Reino de Deus: já está presente em nosso meio, mas também ainda não está. Assim é a unidade! Ela está presente porque tentamos viver como irmãos e procuramos fazer disso uma prática cotidiana. Ao mesmo tempo ela ainda não está presente porque temos muitos desafios a serem superados em nosso diálogo com o mundo, com os que não são cristãos, com os nossos grupos de oração e com as diversas expressões da Igreja.


MCS – Em algumas dioceses essas expressões não convivem bem com a RCC, mesmo quando são expressões de origem carismática como algumas das novas comunidades. Por que isso ocorre?
Volcan – O Conselho Nacional da RCC convive muito bem com os fundadores das novas comunidades, associações e
fundações. Mas reconheço que às vezes tem coisas que fogem ao controle quando os consagrados (das comunidades) e as coordenações diocesanas não sabem traçar caminhos de diálogo. Apesar disso, hoje existe uma maturidade maior, os problemas de 10 anos atrás foram superados na maioria das dioceses e muitas comunidades estão incorporadas ou participam da reunião dos conselhos diocesanos da Renovação e fazem agenda em conjunto... Não é inteligente estarmos envolvidos em conflitos menores.


MCS – A principal queixa da Renovação, nas dioceses em que esse tipo de conflito não foi resolvido, continua sendo o uso dos Grupos de Oração para o crescimento do número de integrantes dessas comunidades... Como resolver isso?
Volcan – A Renovação tem uma identidade própria e as comunidades, em sua maioria, nasceram da RCC e descobriram carismas específicos úteis à vida da Igreja. É bom que cada um respeite a identidade do outro. Mas a RCC não pode ser um espaço para as comunidades arregimentarem seus membros, para isso existem outros espaços abertos! Se conseguirmos perceber esses limites conseguiremos ter um bom diálogo, um caminho para superar os problemas e vivermos em unidade.


MCS – A questão da unidade foi um dos princípios da Ofensiva Nacional, na década de 90 e agora o tema é retomado... O que o senhor responderia para quem alegasse que algo deu errado com a Ofensiva?
Volcan – A Ofensiva Nacional começou na vida da RCC, mas não terminou! Atualmente vivemos uma etapa da Ofensiva onde retomamos não só o tema da unidade, mas também da identidade e missão.


MCS – Como a RCC vai desenvolver o tema da missão?
Volcan – Daqui a um ano, em 2007, teremos o ano missionário quando realizaremos o encontro de jovens carismáticos de toda a América-latina (ECCLA Jovem), que deve acontecer junto com o Congresso Nacional da RCC,
quando pretendemos reunir também o Encontro Nacional de Universitários e de Jovens! A missão é algo especial para o coração da juventude. A missão é para os grupos de oração, mas também está voltada para uma realidade pouco focada por nós: a dos povos distantes, “ad gentes”. Nesse sentido há uma demanda muito grande na Europa, África, Estados Unidos... Na Amazônia! Não sabemos dizer o que é prioritário, mas sabemos que sem unidade – pedido de Jesus - não adianta respondermos a qualquer chamado.


MCS – Em 2005 o senhor visitou a Renovação em diversos estados do Brasil. Por quê?
Volcan – Quando tenho possibilidade de estar presente em reuniões dos Conselhos Estaduais sinto que colaboro com a missão do Conselho Nacional, que é também a de estar junto nos momentos de avaliação na vida da Renovação nos diversos estados. Essa aproximação é uma maneira melhor para conhecer realidades até então avaliadas só por escrito.


MCS – E já deu para conhecer de perto todas as equipes estaduais?
Volcan – Já estive em mais de dez estados, em quatro regiões do Brasil, onde conversei com os coordenadores diocesanos e com os ministérios! São conversas que influem bastante na construção de nossos projetos e as constatações que temos das realidades locais permitem uma reavaliação melhor.


MCS – Esse foi um bom ano para Renovação?
Volcan – Vivemos um ano celebrativo no qual comemoramos 35 anos de Renovação no Brasil! Destaco que a RCC retoma sua identidade com todas as forças, fundamentada na Cultura de Pentecostes, na vida no Espírito. E quando a RCC assume sua identidade ela consegue contribuir melhor com a pastoral de conjunto e pode aprender mais com as diversas expressões da pastoral... Mas eu lembraria que a pastoral de conjunto hoje deve favorecer as novas expressões eclesiais, entre elas a RCC. Nós temos crescido e deveríamos ser mais percebidos na pastoral. Apesar das dificuldades que tivemos, a Renovação soube guardar sua identidade e adaptar-se aos tempos novos.

 

*Entrevista concedida em Novembro de 2005 



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