"...o pai oscila entre o desejo conservador de manter a ferro e fogo autoridade já corroída e o gesto demagógico de renunciar a autoridade..."
Celebrar a festa dos pais é mais que simplesmente dar presentes, mas ressignifica para os dias de hoje um papel que sofre enorme corrosão, embora não deixe de ser fundamental e insubstituível.
As crises civilizacionais não poupam nenhuma instituição. Muitos analistas de nosso tempo consideram o momento atual como verdadeira crise de civilização. Não é de estranhar que o papel fundamental do pai na família e na sociedade se tenha submergido nas ondas tempestuosas da cultura presente. Era o patriarca que reinava, solitário, de sua cadeira à cabeceira da mesa, cercado pela esposa e filhos, ditando as normas, prescrevendo os costumes, definindo o “modus vivendi” de toda a família.
Sustentáculo único da economia doméstica, deixava à esposa os cuidados do lar e dos filhos, enquanto no mundo, cavava-lhes, pelo trabalho, o dinheiro necessário. Do alto da fortaleza econômica dispunha ao bel prazer de todas as regalias senhoriais, embora pagasse por elas o preço duro da faina diária do ganha-pão.
A imagem patriarcal do pai ainda permanece em alguns grotões do interior, mas fadada a desaparecer. Resiste, em momentos de estertor, aos choques sempre mais duros da sociedade moderna. Introjetara-se de tal forma tanto no próprio pai quanto na esposa e filhos que lhes custa livrar-se dela.
Entretanto, a revolução industrial, a urbanização crescente, o embate do novo mundo imaginário da mídia, a profunda transformação cultural do papel das autoridades na sociedade por obra e graça de anseios democráticos, a nova organização da ordem do trabalho, o domínio químico sobre a reprodução humana, a configuração do mundo escolar, entre outras causas, abalaram profundamente a figura soberana do pai.
Perdido entre o passado autoritário e um presente insurrecional, o pai oscila entre o desejo conservador de manter a ferro e fogo autoridade já corroída e o gesto demagógico de renunciar a autoridade. Neste caso, procura igualar-se aos filhos na fraqueza de sua personalidade ou entrega o bastão do poder à própria esposa ou à escola ou a outra instituição. Soluções todas desastrosas.
Os filhos necessitam da autoridade parental, já não mais na forma senhorial do pai, nem na sua voz impositiva e indialogável. Pai e mãe são chamados a ser o “nomos”, isto é, a “lei” que oferece aos filhos um ponto de referência fundamental. Toca-lhes passar aos filhos a experiência do limite, socializando-os numa sociedade de convívio. E esta só é possível no jogo de direitos e deveres, de desejos realizados e barreiras intransponíveis, de possibilidades e interditos.
O pai é quem representa a balança nesse flutuar, não mais de maneira imperial, mas no trabalho paciente e constante, às vezes até a exaustão, de dialogar com os filhos, apresentando-lhes as razões sensatas dos vetos e limites. É o “novo pai” do diálogo, da persuasão, da firmeza.
Duas qualidades antitéticas acompanham tal tarefa: ternura e vigor. A ternura se mostra na maneira suave e livre, aberta à discussão, de seu agir. O vigor se traduz na decisão, que, uma vez tomada com responsabilidade, não permite o seu “não” transformar-se em “sim”. Nesse caso, ficaria desmoralizado e passaria para os filhos imagem negativa de fraqueza.
Mais: os filhos precisam de modelos. Se não os encontram em casa, vão substitui-los pelos falsos heróis da mídia. Um pai honesto, trabalhador, carinhoso, paciente, dialogante, sempre feliz de gastar tempo com os filhos, tem uma força construtora da personalidade dos filhos, absolutamente necessária. Na sua ausência, por uma omissão ou demissão de sua função paterna, outros aventureiros lhe ocuparão o lugar. E se forem esses ídolos vazios e nefastos de muitos filmes, novelas e propagandas!...
Mais ainda: os pais são verdadeiras parteiras do filho potencial, dos sonhos embalados, das possibilidades escondidas no filho real. Como ninguém, o pai tem o condão de acordar em seus filhos forças maravilhosas adormecidas, que, uma vez despertadas, poderão fazer deles personalidades de valor. Numa palavra, o “novo pai” é um marco de referência (nomos), um modelo exemplar e uma maiêutica (obstetrícia) que ajuda a nascer os filhos interiores e latentes nos seus filhos de carne.
Celebrar a festa dos pais é mais que amealhar presentes e passá-los rapidamente às mãos paternas em gesto maquinal. Significa ressignificar para os dias de hoje um papel que sofre enorme corrosão, mas não deixa de ser fundamental e insubstituível.
J. B. Libânio, é professor e diretor emérito da Faculdade de Teologia do Centro de Estudos Superiores dos Jesuítas (CES), Belo Horizonte, MG.
As crises civilizacionais não poupam nenhuma instituição. Muitos analistas de nosso tempo consideram o momento atual como verdadeira crise de civilização. Não é de estranhar que o papel fundamental do pai na família e na sociedade se tenha submergido nas ondas tempestuosas da cultura presente. Era o patriarca que reinava, solitário, de sua cadeira à cabeceira da mesa, cercado pela esposa e filhos, ditando as normas, prescrevendo os costumes, definindo o “modus vivendi” de toda a família.
Sustentáculo único da economia doméstica, deixava à esposa os cuidados do lar e dos filhos, enquanto no mundo, cavava-lhes, pelo trabalho, o dinheiro necessário. Do alto da fortaleza econômica dispunha ao bel prazer de todas as regalias senhoriais, embora pagasse por elas o preço duro da faina diária do ganha-pão.
A imagem patriarcal do pai ainda permanece em alguns grotões do interior, mas fadada a desaparecer. Resiste, em momentos de estertor, aos choques sempre mais duros da sociedade moderna. Introjetara-se de tal forma tanto no próprio pai quanto na esposa e filhos que lhes custa livrar-se dela.
Entretanto, a revolução industrial, a urbanização crescente, o embate do novo mundo imaginário da mídia, a profunda transformação cultural do papel das autoridades na sociedade por obra e graça de anseios democráticos, a nova organização da ordem do trabalho, o domínio químico sobre a reprodução humana, a configuração do mundo escolar, entre outras causas, abalaram profundamente a figura soberana do pai.
Perdido entre o passado autoritário e um presente insurrecional, o pai oscila entre o desejo conservador de manter a ferro e fogo autoridade já corroída e o gesto demagógico de renunciar a autoridade. Neste caso, procura igualar-se aos filhos na fraqueza de sua personalidade ou entrega o bastão do poder à própria esposa ou à escola ou a outra instituição. Soluções todas desastrosas.
Os filhos necessitam da autoridade parental, já não mais na forma senhorial do pai, nem na sua voz impositiva e indialogável. Pai e mãe são chamados a ser o “nomos”, isto é, a “lei” que oferece aos filhos um ponto de referência fundamental. Toca-lhes passar aos filhos a experiência do limite, socializando-os numa sociedade de convívio. E esta só é possível no jogo de direitos e deveres, de desejos realizados e barreiras intransponíveis, de possibilidades e interditos.
O pai é quem representa a balança nesse flutuar, não mais de maneira imperial, mas no trabalho paciente e constante, às vezes até a exaustão, de dialogar com os filhos, apresentando-lhes as razões sensatas dos vetos e limites. É o “novo pai” do diálogo, da persuasão, da firmeza.
Duas qualidades antitéticas acompanham tal tarefa: ternura e vigor. A ternura se mostra na maneira suave e livre, aberta à discussão, de seu agir. O vigor se traduz na decisão, que, uma vez tomada com responsabilidade, não permite o seu “não” transformar-se em “sim”. Nesse caso, ficaria desmoralizado e passaria para os filhos imagem negativa de fraqueza.
Mais: os filhos precisam de modelos. Se não os encontram em casa, vão substitui-los pelos falsos heróis da mídia. Um pai honesto, trabalhador, carinhoso, paciente, dialogante, sempre feliz de gastar tempo com os filhos, tem uma força construtora da personalidade dos filhos, absolutamente necessária. Na sua ausência, por uma omissão ou demissão de sua função paterna, outros aventureiros lhe ocuparão o lugar. E se forem esses ídolos vazios e nefastos de muitos filmes, novelas e propagandas!...
Mais ainda: os pais são verdadeiras parteiras do filho potencial, dos sonhos embalados, das possibilidades escondidas no filho real. Como ninguém, o pai tem o condão de acordar em seus filhos forças maravilhosas adormecidas, que, uma vez despertadas, poderão fazer deles personalidades de valor. Numa palavra, o “novo pai” é um marco de referência (nomos), um modelo exemplar e uma maiêutica (obstetrícia) que ajuda a nascer os filhos interiores e latentes nos seus filhos de carne.
Celebrar a festa dos pais é mais que amealhar presentes e passá-los rapidamente às mãos paternas em gesto maquinal. Significa ressignificar para os dias de hoje um papel que sofre enorme corrosão, mas não deixa de ser fundamental e insubstituível.
J. B. Libânio, é professor e diretor emérito da Faculdade de Teologia do Centro de Estudos Superiores dos Jesuítas (CES), Belo Horizonte, MG.
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