Ora no início da era cristã os judeus costumavam desenterrar seus familiares falecidos e colocavam as respectivas cinzas dentro de um sepulcro da família...“O sepulcro perdido de Jesus?”
Em março 2007 o mundo cristão foi interpelado por uma notícia sensacional; teria sido descoberto o verdadeiro sepulcro de Jesus nos arredores de Jerusalém, longe da tradicional localização da basílica do Santo Sepulcro situada na cidade velha de Jerusalém.
Em linhas sumárias, eis o que foi divulgado:
Em 1980 o arqueólogo israelense Shimon Gibson foi chamado para escavar um terreno onde seriam colocados os fundamentos de um bloco residencial. No decorrer dos trabalhos, o arqueólogo encontrou dez ossuários de pedra na região de Talpiot (vizinhança de Jerusalém). Seis desses ossuários traziam inscrições, das quais cinco pareciam indicar os membros da família de Jesus; assim:
Yeshua bar Yehosef = Jesus, filho de José
Maryan – Maria
Yosé – José em forma diminutiva
Maramne e Mara = Maria, também conhecida como Mariamne;
Yehudah bar Yeshua = Judas, filho de Jesus;
Mattiah = Matias (única inscrição que não indica alguém da família de Jesus).
Ter-se-iam assim descoberto as ossadas de Jesus, de sua Mãe Maria, de sua “esposa” Maria Magdala, de um certo Judas, filho de Jesus, e de José, tido como irmão de Jesus.
Ora no início da era cristã os judeus costumavam desenterrar seus familiares falecidos e colocavam as respectivas cinzas dentro de um sepulcro da família. Ora, como dito, em um dos ossuários achados em Talpiot estava gravada a inscrição “Jesus, filho de José”; em outro ossuários se lia “Judas, filho de Jesus” em hebraico; ainda outro ossuário trazia a inscrição “Mariamne”, que alguns intérpretes entenderam que fosse o equivalente a Maria Madalena.
Essa descoberta dava a crer que Jesus não ressuscitou, pois seus ossos haveriam sido encontrados no sepulcro. O cineasta James Cameron e seu assessor Simcha Jacobovicci, do Discovery Channel, produziram um filme com o título “The Lost Tomb of Jesus” (O sepulcro perdido de Jesus) a respeito , tentando assim divulgar o mais possível a grande novidade; foi também efetuada uma análise do DNA dos despojos de Jesus e Mariamne, da qual resultou que não pertenciam à mesma família, portanto poderiam ser esposos.
Pergunta-se: Quer dizer?
Os arqueólogos em geral desabonaram à a notícia sensacional. E isto por vários motivos:
1) O pretenso sepulcro da família de Jesus deveria encontrar-se na Galiléia e não em Jerusalém (Judéia), pois Jesus e seus pais eram de Nazaré (Galiléia).
2) Os nomes “Jesus, Maria, José” eram muito freqüentes na antiga Palestina. Em 900 túmulos do século I d.C. ocorre 71 vezes o nome Yeshu (Jesus). Com freqüência semelhante aparecem os dois outros nomes. Nas obras do historiador judeu Flávio José ocorrem 21 personagens com o nome de Jesus. Quanto aos Evangelhos, basta lembrar as mulheres aí mencionadas: Maria, a Mãe de Jesus, Maria, irmã de Santa Maria (cf. Mt 27, 56). Maria, irmã de Marta e Lázaro, Maria Madalena.
3) Os ossuários desse tipo eram peculiaridade das famílias ricas. Ora Jesus era pobre; foi sepultado num sepulcro cedido por José de Arimatéia, Ele não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Lc 9,58).
4) Há quem associe a sensacional notícia aqui analisada com o romance “O código Da Vinci”. O sucesso deste livro e filme pode ter incentivado James Cameron a procurar sucesso e dinheiro divulgando uma notícia sem valor científico, mas apta a despertar sensacionalismo, pois trata de pretenso casamento de Jesus com Maria Madalena, como fez Dan Brown há pouco.
5) A pouca credibilidade do túmulo perdido de Jesus resulta também do fato de que Simcha Jacobivici continua a afirmar desde 2002 que foi encontrada uma sepultura com os dizeres: “Tiago, filho de José, irmão de Jesus”, inscrição esta tida unanimemente como falsificação devida a um astuto cidadão.
6) Bill Donohue, Presidente da Liga Católica norte-americana, observa que nbos últimos anos, por ocasião da Quaresma, têm surgido na imprensa notícias que procuram prejudicar a Igreja Católica. Será por acaso?
7) Não se pode afirmar com certeza que o “Sepulcro Perdido de Jesus” data do século I d.C. Bons arqueólogos datam-no do século V.
Em suma, não há que dar importância aos achados de Talpiot, pois carece de fundamento o sensacionalismo que suscitam.
D. Estêvão Bettencourt, osb
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Julho de 2007 , nº 541
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