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O crescimento protestante no Brasil, por Padre Zezinho

jul 6 • Aprofundando • 244 Views • Comentários desativados

Somos 123,5 milhões num país que vai para os 200 milhões. Se, como disse um pregador pentecostal, eles em breve chegarão a 100 milhões, eles que já somam 42,5 milhões, então eles estão vencendo a corrida para o pódio das graças e da fé embora sejamos ainda em número 3 vezes maior. Mas declaração não é o mesmo que pertença. Nem todos os que se declaram católicos agem como quem pertence, assim como nem todos os que se declaram evangélicos agem como tal! Aí, empatamos!
 
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Se avançar em números ou conservá-los for sinal da predileção de Deus, então vence a teologia do que afirmam que Deus abençoa as estatísticas; a conclusão óbvia será: quem cresceu e cresce está com Deus e quem perdeu e perde perdeu a bênção dele. Leiamos o Gênesis, livro das origens do mundo e da fé. Jacó arrancou com ajuda da mãe, por métodos nada justos, a bênção do pai Isaque. Esaú que também tinha lá seus defeitos, perdeu feio. Não tinha a quem recorrer. Mas a vitória de Jacó separou os irmãos por décadas, até que Jacó, o arrependido reparou seu mal, indo ao encontro de Esaú, o dismilinguido!…
Se estatísticas provam o acerto de uma igreja, estamos errando e eles acertando. Digo isso a amigos evangélicos e pentecostais. Os ventos da estatística favorecem vocês. Convictos eles dizem que não apenas os da estatística, mas também os da fé e da graça. Aí, eu os olho por cima dos óculos e pergunto com amizade e uma pitada da mesma ironia deles, se já leram a história dos povos e das igrejas. Alexandre, Ário, Atanásio, Nestório, Eusébio de Nicomédia, Montano, Donato… Podemos aprender com aqueles embates do tipo: “Estamos certos e vocês estão errados, Vejam quanto estão conosco! Jesus é do jeito que anunciamos! A fé deve seguir por este caminho…” Aqueles embates e aquelas afirmações de vitória estão de volta com poderoso marketing da fé que nem Atanásio nem Ário poderiam sequer sonhar. Atingem milhões de ouvidos todos os dias, com horas e horas de programação.
Sou padre católico há 46 anos e não tenho insônia nem sobressaltos quando ouço estas notícias ou quando gravo algumas essas afirmações triunfalistas de cá e de lá. O triunfalismo nunca foi caminho sereno de fé. Na verdade, no momento quem está crescendo em números é uma das correntes e dos segmentos do que se declaram cristãos evangélicos: os pentecostais, que são os que mais frequentam a mídia moderna. E penso que nós católicos ainda perderemos mais fiéis para eles, enquanto, hábeis no uso da mídia e no chamamento de fiéis para os seus templos, eles perdem fiéis uns para os outros.
Por que penso que seguiremos perdendo fiéis para eles? Posso pensar em vinte ou trinta razões, mas a principal delas é a linguagem e o marketing da fé por eles praticado. Nós, os católicos, sob pena de jogar fora nossas Bíblias e nossos catecismos não podemos a) nem usar da mesma linguagem, b) nem das mesmas promessas, c) nem do mesmo aqui-agora-já, d) nem dos mesmos métodos. Foge à nossa tradição. Nunca tivemos que disputar espaço no Brasil e não é agora que o disputaremos. E erraríamos se adotássemos os mesmos métodos e a mesma fala. Enquanto não acharmos a linguagem católica para hoje crescerão eles e perderemos nós. Falo da linguagem aqui-agora-já
Que linguagem é esta? A do vencedor aqui, agora, já. Sim, a história mudaria com eles na liderança! A pregadora entusiasmada, que em plena televisão disse que os evangélicos estavam aparecendo e nós os católicos estamos desaparecendo e predisse nosso fim para menos de 30 anos, pegou pesado e talvez esteja certa. Mas entremos no seu jogo e peguemos pesado também! Já ouvi discurso semelhante dos nazistas e comunistas que predisseram sua vitória e perderam, os nazistas em menos de 15 anos e os comunistas em menos de 70. Como não acreditavam em Deus não ousaram dizer que Jesus estava com eles. Disseram que a História estava do seu lado, quando na verdade tinham posto a História de lado.
A partir de l983 seus bastiões foram ruindo um por um. O que começou com Marx em l848, chegou ao poder na Rússia em l917. Espalhou-se pelo mundo e começou a ruir aos 65 anos aquela primeira vitória. Restaram Cuba e China que tiveram que mudar seus dogmas para sobreviver. O tempo questionou suas profecias. E tinham milhões de ouvintes à sua frente! O eu eles diziam era lei. Já ouvi algo semelhante entre católicos triunfalistas que tinham multidões diante de seus palcos ou de seus salões. “ Venceremos”… Foi bonito naquela hora e arrancou aplausos para aquele momento, mas depois vieram os fatos e as imprevisíveis mudanças da história.
O discurso do vencedor é eficaz por um tempo. Lembra as disputas de velocidade. Alguns corredores sabem ultrapassar e sobem ao pódio muitas vezes, até que inexplicavelmente começam a perder e suas máquinas poderosas perdem para outras. Os habilidosos vencedores de ontem passam para o décimo ou vigésimo lugar. Mas isso é corrida de máquinas e pilotos. No campo da fé, mais do que o aplauso existe a adesão da plateia que não fica lá torcendo. Ela vai para dentro dos boxes e entra na pista com os pregadores. Vai para os templos, liga os televisores, vai para a rua em marchas e procissões, lota praças para ouvir o mais novo pregador ou a mais nova cantora ou pregadora da fé. Era assim nos tempos de Montano e Ário. E as discussões inflamadas pegavam fogo e criavam partidos e grupos em conflito e declarações pesadas a ponto de o imperador que também não era nenhum santo, mas apostava na unidade do império reagir. Convocou concílios para os dois lados discutirem e resolverem suas pendências.
Hoje há um sadio ecumenismo em curso de quem analisa os números, os fatos e os acontecimentos. E há os que seguem na disputa sentindo-se vencedores e nada querendo com o diálogo religioso. Por que dialogariam se os números dizem que a vitória em Cristo está com eles? É isto! Vitória em Cristo, ou vitória de Cristo? … Este em ou de faz enorme diferença. Faz toda a diferença entre marketing da fé e graça do céu! Convém pensar nessas coisas com serenidade.
Sacerdote católico, admito tranquilamente que hoje somos 30% a menos do que éramos há 40 anos atrás. Aparentemente não achamos o discurso e eles acharam. Milhões de católicos foram ouvir o discurso deles. São nossos irmãos pregadores pentecostais. Sou amigo de muitos deles. Outros não me brindam com sua amizade, sabedores de minha franqueza ante as diferenças entre os nossos púlpitos. Mas sou daqueles que acreditam piamente que é possível discordar sem cair em discórdia. Não temos que eternamente repetir a briga de Jacó e Esaú pelo direito de primogenitura, até porque o tempo das barganhas por lentilhas faz tempo que passou. Os números podem enganar os de um lado e os de outro. São efêmeros e iludem.

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